Resumo da aula: por quê, como, por quem e para quê

Nesta postagem eu quero propor a seguinte ideia: o que foi feito durante uma aula deve ser registrado em um documento a ser compartilhado com toda a turma. Regularmente. E, depois de um tempo, esta prática deve ser avaliada por todos os membros da turma, para que se decida se ela deve ser mantida ou não.

Em outras palavras, e com um olhar mais focado em currículo e planejamento, a ideia desenvolvida nesta postagem é a seguinte: um resumo da aula (que você pode preferir chamar de relatório, ata, ou qualquer outra coisa) deve fazer parte dos procedimentos listados no plano de aula, e ser também incluído nas atividades pós aula propriamente ditas, como é a avaliação.

Por que esta ideia surgiu

Estes pensamentos tiveram início a partir de um evento que deve ser familiar a muitos professores: um aluno ficou doente, e iria se ausentar por algumas semanas. Então me comprometi a enviar por email um resumo de cada aula para que ele ficasse sabendo o que andávamos fazendo e que pudesse ir, na medida do possível, acompanhando o curso mesmo à distância.

Era um curso presencial de português para estrangeiros para adultos, oferecido por uma instituição associada a uma prefeitura em uma cidade na Inglaterra. O curso era para iniciantes, com aulas semanais, e havíamos começado as aulas duas semanas antes de o aluno ficar doente.

Decisões formais: que língua e que organização

Ao preparar o primeiro Resumo da Aula, logo me deparei com a questão da língua a ser usada. Queria escrever em português, mas era evidente precisaria usar muito vocabulário desconhecido para listar as atividades da aula, por exemplo “fizemos”, “verificamos”, “conversamos” ou “aprendemos sobre”. No entanto, esta percepção logo me fez ver que no “problema” havia na realidade uma oportunidade de ensino e aprendizagem. Uma vez que essas atividades eram recorrentes, e apareceriam sistematicamente em várias aulas, a apresentação do vocabulário correspondente poderia ser um benefício para os alunos. Tal apresentação permitiria, inclusive, que os alunos usassem tal vocabulário para relatar atividades em grupo em sala de aula (“Nós fizemos a atividade 2”; “Nós já verificamos o trabalho de casa” e assim por diante). Optei por usar a língua inglesa, no entanto, para apresentação de vocabulário novo que aparecia a toda aula no dicionário que a turma produzia coletivamente (falarei desse assunto em outra postagem) e também para apresentação clara e rápida de eventuais conteúdos relevantes.

E, a partir dessas decisões, o Resumo de Aula passou a fazer parte da rotina desse grupo. Veja como ficou o Resumo da Aula – lembrando, esta era a terceira aula de português para estrangeiros em um curso para iniciantes. A coluna à esquerda lista os procedimentos e a coluna à direita deixa um espaço para o aluno registrar o que já foi feito por ele.

Data da aula: ______/______/______Feito?
1 Prática oral
– Observamos ilustrações de pessoas famosas e fizemos frases sobre elas. Por exemplo: [foto de George Clooney] Ele é americano, mora na Inglaterra e fala inglês.
– Pense em frases sobre, por exemplo, Emily Blunt, Andy Murray e Ed Sheeran.
– Praticamos perguntas e respostas sobre pessoas famosas: Ele (Andy Murray) é escocês? É, sim. / Ele mora na França? Não, não mora.
– Aprendemos a dizer: Não sei (I don’t know); Acho que sim (I think so); Acho que não (I don’t think so).
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2 Verificação do trabalho de casa
– Livro página 4 atividade 2: Tire uma foto das suas respostas e envie a foto para um colega ou para mim.
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3 Nosso dicionário
– As palavras de hoje foram: a camisa (shirt); o espelho (mirror); o sofá  (sofa); o queijo (cheese); os óculos (glasses); o agricultor (a person who grows rice, beans, etc, and makes a living from agriculture); o candeeiro (Portugal) / o abajur (Brasil)  (lamp)
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4 Perguntas e respostas sobre informações pessoais
– Aprendemos algumas novas perguntas e respostas. Veja arquivo “P1A3atividades”
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5 Trabalho de casa
– Veja arquivo “P1A3trabcasa”
– Apresentação oral: Prepare uma apresentação oral sobre uma outra pessoa (da sua família, um amigo ou uma pessoa famosa). Use os verbos que você já conhece (ser, falar, morar, trabalhar etc) e use também “tem” (ele tem / ela tem).
Sugestão: Use a apresentação que você fez sobre você na aula passada como inspiração. A diferença é que agora você vai falar sobre outra pessoa.
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Quem deve escrever o Resumo da Aula

O Resumo da Aula tornou-se tão útil nessa experiência não apenas como compartilhamento de informação mas também como oportunidade de aprendizagem, que pouco tempo depois comecei a usá-lo em outras turmas. Os alunos de nível intermediário ou maior foram convidados a eles mesmos produzirem o Resumo da Aula: após cada aula, um novo aluno ficava encarregado de produzir, revisar (com base em feedback dado por mim) e circular o email com o resumo. Mesmo os alunos de nível elementar, após algum tempo, sentiram-se prontos para eles mesmos produzirem o resumo: afinal, neste gênero textual, o vocabulário e estruturas gramaticais utilizadas são recorrentes. Em alguns grupos, a produção do resumo passou a ser colaborativa, com um aluno ficando encarregado de liderar a produção do Resumo da Aula mas tendo colegas adicionando e/ou retificando informações quando necessário.

Resumo da Aula: o que se ganha?

Em termos práticos, o Resumo da Aula tornou-se uma ferramenta importante nos cursos em que foi implementado. Os alunos procuravam e consultavam as informações quando precisavam se ausentar a uma aula. Com as novas formas de tecnologia disponíveis, e obedecendo às necessidades e desejos de cada turma, é possível produzir Resumos da Aula em páginas de web, blogues, wikis e outros. É possível criar layouts atraentes, incluir fotos ou vídeos, adicionar aspectos tipográficos – tudo isso cria novas oportunidades de aprendizagem para os alunos, já que têm que interagir na língua estrangeira para criar seus resumos.

Há desafios nesta prática, claro. Os desafios são aqueles que todo professor conhece: a falta de tempo e a dificuldade em envolver todos os alunos são dois exemplos. Na minha experiência, concluí que a questão do tempo pode ser um grande desafio inicialmente mas, quando o Resumo da Aula passa a ser parte da rotina do grupo e os alunos se responsa, ele acaba “criando” tempo de certa forma.

Uma observação final: você deve ter notado que no Resumo da Aula dado como exemplo aparece um procedimento chamado “Nosso dicionário” e um objeto chamado “sua pasta”.  Tais referências remetem a particularidades do curso, que eu pretendo discutir em futuras postagens nesta categoria (Prática de Sala de Aula / Clasroom Practice).

2 thoughts on “Resumo da aula: por quê, como, por quem e para quê”

  1. Muito interessante! Sempre aconselhei a alunos (no caso especifico alunos de bioquimica) que depois de casa aula tentassem dar a mesma aula (fantasia, não realidade) para uma outra pessoa, imaginária. Uma pessoa sem conhecimento do assunto. Creio que pode ser um processo semelhante ao de compor o resumo da aula, em que o aluno goes over the subject again, mas de uma forma que as proprias duvidas e fraquezas na compreensão ficam mais evidentes.

    • Boa prática, essa sua! E como você diz o “relato” traz dúvidas e conceitos não apropriados à tona, o que é pedagogicamente relevante – para se poder seguir adiante na aprendizagem.Eu acho que é possível relacionar essa prática com todos todas as categorias na taxonomia de Bloom, dependendo do foco que damos na retomada desse relato/resumo/aula pra outra pessoa/o que quer que chamemos essa prática. Obrigada pelo seu comentário!

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