Roteiro para um autorreaprendizado

“É com muita satisfação que apresento meu convidado de hoje. Um homem que muito aprendeu e muito ensinou na vida. E que nunca parou de aprender. Depois de se aposentar, foi às pesquisas genealógicas da família e produziu um livro sobre o assunto. Passa as horas de lazer lendo sobre matemática, física, filosofia e outros. Na décima década da sua vida, produziu este roteiro com passos que segue para garantir o que chama de “autorreaprendizado” (que bela palavra!). O roteiro serve de referência para ele verificar se está aprendendo; ou melhor, reaprendendo; ou melhor, autorreaprendendo bem. Uma coisa que muito me surpreende neste roteiro é que as etapas aqui propostas espelham a taxonomia de Bloom quase perfeitamente – e meu convidado me diz que não conhecia a taxonomia. É surpreendente. Como quase tudo é com meu convidado. Diante de tudo que escrevi até agora, é um orgulho fechar esta apresentação dizendo: “Dou a palavra a você, meu pai.”

Denise Santos
Capa do livro “Os Freire Machado”, de autoria de Carlos Freire Machado (2008)

Este Roteiro é o que pratico no meu autorreaprendizado de assuntos que me interessam.

Ele se impõe porque percebo que meu conhecimento de matérias estudadas há muitas décadas foi adquirido sem uma base sólida. Foi adquirido às pressas para fazer currículo, para fazer provas, e muito dele esquecido durante minha vida profissional.

Em fase mais recente de disponibilidade de tempo, com visão mais abrangente das coisas, e interesse por trabalho mental em matérias que me agradam, empreendo o trabalho de reaprendê-las sem a ajuda de professor.

E, como verifico,  tudo que sei (sabia) está (estava) sobre um terreno frouxo!

Eis o Roteiro:

1 Reunir dois a três livros que tratam do assunto, aproximadamente no mesmo nível de dificuldade

Esta providência se impõe porque os livros, mesmo tratando de igual assunto, abordam o assunto com linguagens diferentes. A linguagem e símbolos são importantes para constituir um conhecimento.

2 Familiarizar-se com a simbologia e seu significado e memorizá-los

Isto se impõe porque o símbolo contém conceitos e definições próprias, propriedades implícitas, que vão constituir o assunto ao longo do texto. Questioná-las, repeti-las e comparar os diversos significados delas, quando existirem. Consultar dicionários.

3 Gravar na memória os Princípios, Postulados, Axiomas e Convenções

É uma questão essencial, porque toda a teoria exposta no texto está baseada nesses princípios, postulados, axiomas e convenções. Isso não foi ressaltado no aprendizado que fiz durante minha formação. Não se pode avançar no estudo de qualquer assunto sem o apoio de seus princípios, postulados, axiomas e convenções. O aprendizado deve ser feito por partes do texto, e deve ser memorizado para repeti-lo, não como um papagaio, mas como um conhecimento verdadeiro. Como uma compreensão do que se está falando. A faculdade humana da memória é fundamental neste ponto.

4 Fazer uma pausa na leitura dos livros para ver como os princípios estão sendo aplicados ou se não estão explícitos ao longo do livro

Nesta pausa fazer exercícios mentais, abstratos, da matéria aprendida. Nesses exercícios aparecerão dúvidas e ideias próprias, novas ou não, que podem enriquecer o aprendizado,  ou forçar a rever o assunto devido às dúvidas surgidas.

5 Voltar à leitura dos livros e verificar onde o assunto foi tratado no seu cerne, e separá-lo do que foi tratado como apêndice / tópico

Neste exercício estaremos fazendo um trabalho de síntese, o que é importante para se gravar o assunto na memória.

6 Ao longo do autorreaprendizado, escrever um texto do que aprendeu

Aqui é curioso constatar, quando for ler o próprio texto, que irá notar como é difícil e insuficiente a compreensão dele, assim como foi difícil a compreensão do texto escrito pelos autores dos livros. Na simples leitura a velocidade da visão do texto suplanta a velocidade da compreensão dele. Aquilo que foi lido e simplesmente renegado, esquecido inconscientemente.

Neste ponto, aqueles que possuem memória insuficiente para aquela matéria são altamente prejudicados. A pessoa pode ter memória visual, por exemplo, mas que não é suficiente para o que se está tratando; pode ter boa memória para guardar textos (recitadores, artistas), mas que não é suficiente igualmente . O aprendizado a que estamos nos referindo exige capacidade de raciocínio lógico.

7 Durante as fases do reaprendizado, contrapor etapas umas contra outras

Isto é importante para se assegurar que as fases tenham continuidade, se ponham logicamente em ordem umas com as outras. Elas, as fases, podem levar a associações de ideias próprias do leitor, o que é um trabalho que exige inteligência, imaginação e memorização.

8 Observar que há passagens do texto do livro que  exigem mais habilidades operacionais do que conhecimento básico da matéria

As habilidades operacionais são as que se usa na pratica com a aritmética, álgebra e geometria. As habilidades são as transposições de termos nas equações, nos polinômios, as fatorações,  as simplificações, os artifícios, os gráficos etc.

9 Ter conhecimento fundamental do assunto para chegar aos algoritmos, regras, receitas

O que se pratica comumente no aprendizado das matérias é simplesmente apresentar o algoritmo, ou regra delas, sem a explicação, demonstração, do fundamento delas. O resultado é um aprendizado baseado unicamente na memória e não no raciocínio.

10 Observar como muito conhecimento é baseado em convenções e axiomas

São casos em que o assunto não depende da busca da verdade dele, mas de denominação convencionada pelos mestres. Outros são oriundos de axiomas, verdades aceitas como naturais, sem exigência de demonstração. Outros ainda são oriundos de um surpreendente “eureca” ou de um inesperado “ insight”.

11 Ao atingir um nível de conhecimento abrangente da matéria, havendo interesse, passar a livros de nível mais avançados

Neste nível pode acontecer que se aceite como suficiente o conhecimento adquirido, seja para uso próprio, ou como satisfação pelo exercício mental feito.

Finalmente, o objetivo procurado neste exercício de autorreaprendizado é pelo interesse de um trabalho mental. O alcançado, é aquele que se aceita como suficiente.

Mesmo porque, a conclusão a que se chega é como a inteligência humana é insuficiente para desvendar o infinito mistério da existência.

Carlos Freire Machado (1922- ) formou-se em engenharia civil na Escola Nacional de Engenharia da Universidade do Brasil, e foi professor de Concreto Protendido no Instituto Militar de Engenharia no Rio de Janeiro-Brasil. Autor de projetos e construtor de obras de Concreto Protendido.

11 thoughts on “Roteiro para um autorreaprendizado”

  1. Seu Carlos!
    Quanta emoção e admiração eu sinto ao ler sobre um tema tão precioso, escrito por um humano quase centenário! Multiprecioso: aprender é condição básica da nossa existência; só o sujeito é capaz de aprender, pois ninguém ensina ninguém; reaprender traz esperança, é a volta nova. Muito agradecida por tê-lo compartilhado!
    Abraços saudosos. Eloiza

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  2. bom, eu me apaixonei agora – que blog post mais “inspirational” e quantas verdades, principalmente o paragrafo inicial que fez um eco tremendo dentro da minha mente: “percebo que meu conhecimento de matérias estudadas há muitas décadas foi adquirido sem uma base sólida. Foi adquirido às pressas para fazer currículo, para fazer provas, e muito dele esquecido durante minha vida profissional.”

    The apple never falls far away from the tree, Denise… 😉

    Amei essa postagem por muitos motivos, me emocionei do inicio ate’ o fim – um super abraco ao seu “convidado especial”

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  3. Denise, repetindo o que disse a Salete, não é à toa que você é como é… Obrigada por compartilhar esse texto e os ensinamentos do seu pai, que eu espero poder seguir. Sinto que até mesmo o que aprendo hoje ainda não tem a base sólida que deveria ter, justamente por ainda ser aprendido às pressas, dada a nossa eterna correria (não sei bem atrás de quê…). E temos agora uma palavra maravilhosa: autorreaprendizado! Um abraço para o seu pai, pessoa tão especial.

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  4. Denise, emocionante o texto do seu pai. Já me emocionei na sua introdução. Realmente como a gente estuda, estuda e sempre tem essa pressa que nunca acaba. Poder parar, revisitar tudo, reaprender, refletir e fazer um autorreaprendizado conforme ele sugere é fundamental. Quantos ensinamentos neste post. Obrigada por compartilhar esse roteiro maravilhoso!!

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  5. Brilliant, absolutely brilliant! E agora está tudo explicado. Não conhecia, na minha santa inguinorância, nenhum texto escrito por Carlos Machado, mas o vejo agora, so true e tão bem escrito, com o rigor matemático que compete a um senhor engenheiro. E agora está explicado por que razão os textos da Denise, muitos dos quais eu conheço e enfeitam os livrinhos que escrevemos juntos, sejam também merecedores de um Brilliant, absolutely brilliant! Trata-se de um clássico exemplo de a chip off the old block. Like father, like daughter, they both have a way with words.
    Parabéns ao Carlos pela lição do autorreaprendizado e à Denise, por partilhar esse docinho com a gente.

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  6. Dr. Machado,
    Eu tive o prazer de conviver os últimos 43 anos da minha vida com o senhor, admirando a sua vitalidade mental, sempre procurando aprender e evoluir. Eu testemunhei pessoalmente isso quando ajudei a introduzir o computador na sua vida. Assim como o senhor me ajudou a ver as coisas de uma forma objetiva e sempre honesta e ética, o que reforçou mais ainda todos os ensinamentos que já havia recebido. O post de hoje é maravilhoso, orientando como devemos fazer para continuar a aprender sempre. Obrigado por compartilhar isso de uma forma tão direta e simples, mas extremamente valiosa. Um grande abraço

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  7. Denise,
    Que texto lúcido e, ao mesmo tempo, emocionante! Nunca havia ouvido este significante “autorreaprendizado”. Me faz pensar que a vida é sempre aprender e reaprender e, neste reaprendizado, encontrar os temas ou valores que mais nos animam, refletir sobre eles e expandi-los. Parabéns ao Dr. Carlos! Parabéns a você que herdou os traços de seu pai e os tem passado adiante, eternizando-os.

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  8. Amigo Primo Carlos
    Apesar de termos iniciado nossos contatos apenas há cerca de década e meia, deu para apreciar Sua capacidade intelectual e não me admirar da boa qualidade da apresentação do presente Roteiro .Organiza conceitos e procedimentos que todos deveríamos ter utilizado pelo menos pouco tempo depois do aprendizado “oficial” e que muito contribuiriam para rentabilização de conhecimentos e suas utilizações. Mas ainda vamos a tempo!
    Muito obrigado pelas pérolas de Sua sabedoria.
    Abraço.

    Francisco Azevedo Machado

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  9. Muito bom post, Vô.

    Não tem muito que eu possa dizer que não já foi dito nos outros comentários, então vou só compartilhar um dizer relevante:

    “Anyone who stops learning is old, whether at twenty or eighty. Anyone who keeps learning stays young. The greatest thing in life is to keep your mind young.” – Henry Ford

    Espero manter a minha mente tão ‘young’ quanto você consegue manter a sua, por tanto tempo.

    Abraços,
    Eduardo

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  10. Querido Carlos, que emocionante suas palavras tão sábias e verdadeiras….permeadas de uma memória vívida de quem realmente se entregou e se dedicou à busca do conhecimento com gosto e paixão!!
    Sua pulsão!!
    Posso dizer que construímos juntos um percurso em busca do conhecimento do corpo, das possibilidades de movimento possíveis desse corpo…flexibilizamos o corpo, e a mente acompanhou, não mais existia a dissociação entre mente e corpo, agora a consciência do todo integrava o corpo e a mente – ‘Corpomente’.
    Sua escuta e seu olhar estavam se sensibilizando, se tornando mais perceptíveis aos estímulos sensoriais!!!
    Belíssimo processo!!! Uma busca e vivência do corpo sensível, do corpo perceptível , do corpo consciente!! Do corpo filosófico, matemático, físico…
    Das prosas sobre a vida, a existência, questões da alma, sobre nossas crenças e temores!
    Me emociono quando lembro, numa sessão, que falei “ todo movimento é possível quando compreendemos nossos limites e nos permitimos às mudanças”… daí de prontidão você falou “ isso eu entendo como resiliência !! E continuou…Na física é propriedade que alguns corpos apresentam de retornar à forma original após terem sido submetidos a uma deformação elástica.
    E na vida é a capacidade de se adaptar às mudanças!!!”” “
    Bravo !
    Naquele momento percebi e aprendi com você a importância da experiência vivida de cada um ! Para se ter consciência e compreensão de si nossa vida tem que fazer sentido!!!
    Você com seu desejo de aprender, conhecer, desvendar seus mistérios, transpor seus limites impressos no corpo e na mente, se arriscou por caminhos desconhecidos com fé e coragem!!
    Foi ousado !!
    Honrou a si mesmo!!
    Criou seu “autorreaprender” !
    É uma honra fazer parte de sua história de vida e poder dividir, aqui, com todos!!
    Com afeto,
    De sua amiga e fisioterapeuta
    Fernanda
    ☀️✨

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  11. Como uma pessoa que sempre gostou de aprender, e agora que estou aprendendo a teoria e a prática da educação, esse roteiro me soa bem familiar e intuitivo. As etapas, como foi dito na introdução, seguem muito em paralelo com a teoria educacional formal, incluindo as teorias mais novas p. ex. esforço cognitivo que enfatiza a importância da memória de conceitos fundamentais antes de poder prosseguir no aprendizado. Isso mostra que as vezes é só necessário um pouco de “common sense” e que os avanços tecnológicos estão “confirmando” o que algumas pessoas já sabem e usam intuitivamente.

    Muito bom ler os pensamentos de uma pessoa que aprendeu e ensinou tanto na vida. Aliás, isso me lembra de um outro passo no roteiro que poderia ser adicionado. Na 6a etapa, o ideal seria não só escrever sobre a matéria mas também ensiná-la a um outro iniciante, idealmente um que faria perguntas profundas para testar o nosso conhecimento e nos forcar a pensar de uma outra maneira. É uma coisa falar com uma página (seja lendo ou escrevendo), e essa etapa é importante para coletar e organizar os pensamentos sem distração, mas eu acho que um passo adiante disso é conversar sobre o assunto com outras pessoas interessadas que possam trazer outros pontos de vista e perguntas em que não pensamos. Dizem que o Sócrates, possivelmente o filósofo mais importante na história da humanidade, não escrevia, mas preferia debater os assuntos favoritos dele com o povo comum nos mercados de Atenas para poder responder as perguntas mais importantes da vida. Resumindo, conversas com iniciantes curiosos são fundamentais para nos tirar da nossa área de conforto!

    Muito obrigado pelo post. Que cada dia novo traga aprendizado novo para todos nós.

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